Folhetins
Rio de Janeiro, Setembro de 2024
Hoje eu não vou chatear José de Alencar e vou me publicar.
Nasci no início dos anos 90, lembro da empolgação de quando ganhei meu primeiro computador, do barulho que a internet discada fazia e de usá-la só depois da meia noite, porque cobrava só um pulso. Não fazia ideia do que era um pulso, mas era 00h01 e lá estava eu assistindo os vídeos do Humortadela.
Ocupei várias redes sociais, era uma early adopter, uma das primeiras a criar conta em tudo e explorar o que surgia. Pensava nas outras poucas Amandas Scarpins do mundo e sentia pena, porque logo perdiam as melhores combinações de @amandascarpin ou @amanda.scarpin.
ICQ eu não tive, até pensei em ter, mas era coisa de gente velha, gente de 20 e poucos anos. Eu era jovem, então usava MSN e era uma usuária dedicada: colocava indiretas no nick, ouvia música que os crushes gostavam para arquitetar a nossa identificação - fui fã número 1 de NX Zero, de Iron Maiden e de Criolo Doido. Ficava online e offline quando meu time fazia gol até ocupar a tela inteira do computador - em dia de Atletiba, então, isso era um inferno. Mandava winks pela graça, dizia tchau pras minhas amigas e ia embora mesmo. Os saudosos os tempos que a gente saía da internet.
No Orkut, montei álbum de doze fotos cuidadosamente selecionadas, só adicionava com scrap, escrevia depoimento “não aceita” e aceitava depoimento “o topo é meu”. Julgava a pessoa por suas comunidades, era como traçar um perfil psicológico, um aperitivo do senso de humor da pessoa. Identificava amizades em potencial só pelas comunidades. Estive nas comunidades “Eu amo o NX Zero”, “Iron Maiden Brasil”, e “Fãs do Criolo Doido”, mas também era de “Discografias”, “Abro a geladeira pra pensar”, “Não fui eu, foi meu eu lírico”, e “Lenin, de 3”. Eu era 90% sexy.
No Twitter eu xinguei muito, isso foi por volta de 2012, depois fiquei preguiçosa. Voltei lá anos depois e morri de rir e de vergonha, a passagem do tempo é mesmo uma benção. Não faria sentido que as referências dos meus 20 anos fossem as mesmas dos 30, apesar de algumas coisas se manterem, é claro, ainda gosto de acompanhar eventos esportivos pelos comentários do povo do Twitter. Mas voltemos ao José de Alencar antes que você me pergunte de Elon Musk, eu hein, hoje é domingo, se é para me aborrecer ligo a tv pra ver o Athletico jogar daqui a pouco.
José de Alencar nasceu em 1829. Sete anos antes dele nascer, Dom Pedro I proclamou a Independência do Brasil. Quando José tinha dois anos, o imperador abdicou do trono em favor de Pedro II. José teve suas tretas com Pedro II ao longo da vida. Se tivessem nascido uns 160 anos depois, aposto que teriam se xingado muito nas internets.
José publicava os capítulos de ‘O Guarani’ semanalmente nos folhetins do Diário do Rio de Janeiro. Os folhetins, antes de ganharem os corações dos leitores, antes de serem importantes a ponto de definir um gênero literário e te fazer ouvir falar deles em aulas de português e literatura, nada mais eram do que os espaços de rodapé que sobravam no jornal.
O homem publicou um clássico em rodapé de jornal.
E então os netos do ICQ, os filhos do Orkut, do Last.fm e do Flogão, com página no Instagram, Threads, TikTok, Pinterest, Substack, com espaço infinito pra falar de coisa boa na internet, pensam que isso tudo não é o suficiente e estão à espera do editor do Diário do Rio de Janeiro vir elogiar o seu trabalho. A internet tem o lado cafona, o lado feio, sabemos, mas refiro à coisa boa. Nós, eu e você, também estamos aqui.
José de Alencar usava o espaço que tinha, pois não chateie o homem. Meu tempo é hoje, seu tempo é hoje. Publiquemo-nos.


