Instagrammable
Leitores distraídos. São Paulo, Agosto de 2024.
A cena era de cinema: casal bonito sentado à mesa de uma cafeteria, em silêncio, cada um lendo o seu livro. A mesa com uma bagunça organizada de dois espressos, uma fatia de bolo, dois garfos, um para cada lado do prato. Ela lia García Márquez; ele, alguma coisa entre Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos, meu recém diagnosticado astigmatismo não me permitiu ver no detalhe.
Fiquei admirando os dois ali, tomando um café, dividindo um bolo, curtindo a presença um do outro. Presentes no presente. Despreocupados com parecer.
Eu, que já tinha pensado em sacar o celular para fotografar a cena, a janela da cafeteria, a luz bonita que batia contra eles, decidi deixar pra lá. Estava tudo muito lindo, mas decidi degustar o presente sem telas. Vou curtir o café esfumaçante que tá chegando agorinha na minha mesa. Pego o meu livro também.
Reflito sobre isso com frequência, sobre aproveitar o momento com a atenção que ele merece, sem uma preocupação excessiva com o registro; sobre observar os ângulos bonitos que se apresentam para mim, e não força-los só pra que virem um post legalzão, ou aesthetic, ou instagrammable - ou tumblr, para quem estava lá.
O problema é que a minha memória é ruim, então as fotos me ajudam a lembrar. Mas será que eu preciso lembrar do pão de queijo borrachudo que comi no dia 08/08/2024? Penso sobre o cuidado de não fazer coisas só porque ficam bem nos stories, mas sim, fazer as coisas porque realmente quero fazer as coisas. Depois eu escolho se vou mostrar as coisas, se vou postar as coisas, enfim. A moça que lia García Márquez está apontando a câmera do celular dela pra mim.
Isso mesmo, a moça que lia García Márquez tá apontando a câmera do celular dela pra mim. Ela levanta e, sem o menor constrangimento, aponta a câmera pra minha direção. Querida, o que é isso, estou cagada? Você vai me postar e escrever “liberdade ou solidão”?
Logo percebo que aquele ângulo não era pra mim - era para ela. Ela apoia o celular na mesa que está entre nós, posiciona a câmera frontal para a mesa dela e do namorado e começa a fotografar o momento super natural dos dois. Coloca o temporizador, senta na cadeira, finge que está lendo. Ele faz uma cara de leitor distraído, mão apoiada no queixo e olhar perdido em direção ao livro. Ela levanta, de novo, dispara o temporizador, volta correndo pra cadeira, pose de leitora distraída. Duas, três, e de novo, quatro vezes no mesmo ângulo. Quatro vezes as poses de leitores distraídos.
Casal, não os conheço, mas não acabem com os meus sonhos assim. Tivemos um momento de presença, um silêncio confortável, uma atenção plena, não é? Isso foi apenas uma foto - ou sete fotos - pelo prazer da memória? Ou vocês mal experimentaram esse bolo em cima da mesa? Você estão lendo esses livros de verdade???
Só de raiva, tiro foto do meu bolo e do meu café. Agora vou lembrar pra sempre desse bolo aesthetic. Minha memória é péssima mesmo. E ainda me arrependo de não ter tirado foto deles quando foram um casal bonito sentado à mesa de uma cafeteria, em silêncio, cada um lendo o seu livro - agora são vocês que vão virar um post.



Muito bom! Estou almoçando aqui em casa sozinho e achei que estava na cafeteria com todos vocês. Hahahah